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Leandro Narloch
O Caçador de Mitos
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às 17:23 \ Desigualdade
País rico é país sem pobreza?
Nos últimos quatro anos, os brasileiros tiveram que conviver com
a frase “país rico é país sem pobreza”. Ela esteve em toda logomarca, em toda
propaganda do governo federal. Por isso é o caso de perguntar: é
válida a afirmação do slogan de Dilma?
A princípio, é difícil discordar da frase. Mesmo se parte da
população tiver picanha na mesa e iPhone no bolso, ainda estaremos mal se a
outra parte seguir faminta. Em 2011, quando o governo lançou o slogan, houve
quem reclamasse da obviedade da afirmação – é claro que país rico é país sem
pobreza, disseram.
Mas a frase não é óbvia. Na verdade, ela esconde um problema
fundamental: é muito difícil não haver pobres num país rico. Essa condição não
é estável, pois países ricos atraem pobres. Um país rico e sem pobreza até é
possível, mas somente se o mundo todo enriquecer ao mesmo tempo ou se
impedirmos migrações erguendo muros e cercas nas fronteiras.
O problema fica claro se o leitor imaginar exatamente o que o
slogan propõe, um país rico e sem pobreza. Digamos que, ao acordar amanhã de
manhã, você percebe que tudo deu certo no Brasil. O menor salário pago no
mercado chega a 3 000 reais. Mesmo a turma do último tijolo da pirâmide social
vive com alguma dignidade. Não há favelas ou indigentes; não sobrou sequer um
único sujeito que reutilize o copo de requeijão ou seque roupa atrás da
geladeira. Incrível.
A alta de salários causa mudanças no estilo de vida dos
brasileiros. Vagas em trabalhos menos produtivos que 3 000 reais por mês se
extinguem. Uma família de classe média, que dispõe de apenas 900 reais para
pagar alguém que limpe a casa, passe a roupa e passeie com o cachorro, terá de
se virar com o serviço doméstico.
Mas 900 reais por mês é luxo em alguns países latino-americanos.
Haitianos logo perceberão a demanda não atendida por empregos domésticos no
Brasil e virão contentes trabalhar aqui. Como demonstram os haitianos que já se
mudaram ao Brasil, 900 reais para eles significa um ganho e tanto. Podem
economizar todo mês o equivalente ao salário integral que ganhariam no Haiti –
onde o salário mínimo, para quem não está entre os 40% de desempregados, é de
13 reais por dia.
Acontece assim o jogo preferido dos economistas: o jogo de soma
diferente de zero. No futebol ou no pôquer, a soma dos resultados é nula. Um
time precisa perder para o outro ganhar. Quem tem duas damas no pôquer perde as
fichas para o sortudo que tirou uma trinca de setes. Não é assim nos acordos
voluntários da economia. As fichas se multiplicam; todos voltam para casa com
um pote maior. Você e o haitiano jogam. E os dois ganham.
A chegada em massa de haitianos, ainda maior que a atual, faria
bem a eles e às famílias brasileiras que os contratariam, mas há uma
consequência. Eles trariam pobreza para dentro das linhas imaginárias brasileiras.
Alguns dos recém-chegados morariam em cortiços com cinco pessoas no mesmo
quarto. Outros, para economizar no transporte, montariam casebres em terrenos
próximos à casa de brasileiros enriquecidos, criando cenas tocantes de
contraste. Em pouco tempo, não seríamos mais um país rico e sem pobreza.
Sim, há uma boa notícia na famosa foto da desigualdade social
Os jornais mostrariam fotos de gente pobre no Brasil, e essas
imagens circulariam pelo mundo. Os políticos da oposição alardeariam dados
sobre a péssima qualidade de vida dos novos moradores que, segundo eles, seriam
explorados pelas famílias de classe média. Ainda que todos os pobres envolvidos
na história tivessem melhorado de situação.
Quanto esse exercício de imaginação explica a realidade
brasileira? Um bocado. Muita gente entristece diante da desigualdade sem notar
que aquelas pessoas estão numa situação melhor que no passado. É o caso da
famosa foto acima, da favela de Paraisópolis ao lado de apartamentos de luxo do
Morumbi. Quando livros didáticos ou provas de vestibular escolhem essa imagem
para retratar a desigualdade social – e fazem isso com frequência –, comparam a
riqueza dos apartamentos com a miséria da favela. Mas a comparação mais
adequada é dos moradores da favela hoje e no passado, antes de mudarem para a
metrópole. “A pobreza urbana não deveria ser comparada à riqueza urbana”, diz o
economista Edward Glaeser, professor de Harvard e o mais celebrado especialista
em economia urbana dos Estados Unidos. “As favelas do Rio de Janeiro parecem
terríveis se comparadas a bairros prósperos de Chicago, mas os índices de
pobreza no Rio são bem menores que no interior do Nordeste brasileiro.”
Por essa nova comparação, a famosa foto da desigualdade social
mostra uma excelente notícia. Quem mora em Paraisópolis vive muito melhor do
que se tivesse permanecido no sertão nordestino, nas lavouras de boias-frias do
Paraná ou entre os escombros de Porto Príncipe. Não importa se a miséria está
mais aparente ou mais próxima; o principal é que para os miseráveis ela tenha
diminuído. Glaeser arremata:
A pobreza
urbana não deveria envergonhar as cidades. As cidades não criam pobres. Elas
atraem pobres. Elas atraem pobres justamente porque fornecem o que eles mais
precisam – oportunidade econômica.
Esse raciocínio vale não só para cidades, mas para países. Mesmo
se enriquecer, o Brasil jamais será um país sem pobreza. E é bom para os pobres
que seja assim.
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