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A suavidade esquecida
dos pelos pubianos
(Theodoor Thomas, Nu Feminino, 2013)
“Mas ela é um livro
místico e somente
a alguns (a que tal graça se consente)
é dado lê-la”
(John Donne em tradução de Augusto de Campos)
a alguns (a que tal graça se consente)
é dado lê-la”
(John Donne em tradução de Augusto de Campos)
Fetiche masculino pela
vagina sem pelos, sempre houve. Na carta de Pero Vaz de Caminha, em 1500, já
apareciam os portugueses botando reparo nas xoxotas lisinhas das índias do
Brasil, ao descoberto. “Suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão
limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam”,
escreve o gajo, embevecido. Caminha chega a apostar que, de tão “graciosa”,
a vergonha das
índias causaria inveja às mulheres europeias, “por não terem as suas como ela”…
Na arte barroca e
renascentista, porém, por pudicícia ou moralismo, as mulheres sempre apareceram
glabras, inteiramente desprovidas de pentelhos, como se a ausência destes fosse
sinônimo de ausência de malícia. O púbis pelado, qual o de uma criança, era
quase a personificação da pureza em forma de boceta. Ao que tudo indica, a
primeira vez que os pelos pubianos femininos aparecem na pintura ocidental é no
óleo sobre tela La Maja
Desnuda (1795-1800), de Goya, um dos quadros mais famosos da
história. A penugem é discreta.
O tabu seria rompido de
forma gloriosa e, digamos, Ohaniana, pelo francês Gustave Courbet (1819-1877)
com sua Origem do Mundo,
de 1866.
Já no século 20, o
austríaco Egon Schiele (1890-1918) tampouco abriria mão de retratar suas
musas au naturel,
sem retoques.
(Nu Feminino com as Pernas Afastadas, 1914)
Assim como, anos mais
tarde, o espanhol Pablo Picasso (1881-1973).
(Odalisque, 1951)
Sabe-se que o hábito de
afeitar a xoxota não é recente, pelo contrário, existe desde tempos remotos. É
ainda cultural: no islamismo, homens e mulheres são encorajados a depilar as
partes íntimas. Mas quando foi que, entre nós, o monte-de-Vênus peludo se
tornou um pária, um proscrito? Culpa das brasileiras, que apresentaram ao
mundo, no final da década de 1980, uma técnica de depilação que ficaria famosa
justamente com o nome de “brazilian wax” –aqui, “cavadinha”. Era a depilação
ideal para usar biquínis cada vez menores e que, com o tempo, foi ficando mais
cavada do que a própria tanga, até não restar quase nenhum pelo no púbis e até
no ânus.
O que eu tenho contra a
depilação? Nada. Faz quem quer. O que me incomoda é a obrigatoriedade que se
estabeleceu em torno do assunto. Vejo homens por aí dizendo que “não aceitam”
mulher que não se depila, quando eu acho que homem que gosta de mulher, gosta
de qualquer jeito, com pelos ou sem (já falei uma vez e repito: quem gosta
mesmo de manga não se importa com fiapo).
Para começo de conversa,
não acho que a depilação de uma mulher ou a falta dela seja assunto para homens
opinarem. E, ridiculamente, são eles que costumam ser convocados a falar sobre
depilação, até mesmo nas revistas femininas. Ora, o corpo é da mulher e a
última palavra sobre isso deve ser dela: se quer depilar a xoxota (inclusive
para agradar ao parceiro), quem decide é a mulher. Ao homem, neste momento,
cabe aceitar ou, no máximo, pedir para que a parceira ceda a seu capricho.
Jamais querer impor sua opinião, até porque podemos passar a exigir que os
homens também se depilem, que tal?
Outro aspecto é que os
pelos estão ali para proteger a vagina. Espalhou-se a falsa ideia de que
depilar é “mais higiênico”, quando, ao contrário, a ausência da penugem deixa a
vagina literalmente nua. Não é à toa que, desde que as mulheres passaram a
arrancar tudo, aumentaram as ofertas de sabonetes e desodorantes íntimos: é
para compensar a falta que os pelos fazem ali. Com uma vantagem extra: os
pentelhos também funcionam como difusores dos feromônios, os hormônios sexuais.
Há ginecologistas, aliás, que advertem que mascarar odores da xoxota com produtos
específicos pode fazer mal à flora vaginal. Tanta higiene e assepsia, no final
das contas, não combina com sexo.
O mais importante: na
ânsia pela “limpeza”, esqueceu-se que os pelos pubianos podem ser suaves e
macios ao tato, além de esteticamente bonitos, ao contrário de certas
depilações por aí. Há um mistério gozoso na penugem encaracolada (castanha,
negra, loira, ruiva) que envolve o sexo da mulher, e desbravadores dedicados
destas matas encontrarão prazer em descobri-lo. Todas as xoxotas são lindas à
sua maneira, depiladas ou não –mas não é tão óbvia, me permitam, a beleza
de uma xoxota coberta de pelos.
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