Depressão: um enfrentamento insuportável com
a verdade
Por CONTI outra –4 ago, 2015
A depressão é uma forma
muito particular e avassaladora daquilo que corriqueiramente chamamos a dor de
viver. Juntamente com a angústia e a dor propriamente dita, é uma constelação
de afetos tão familiar que, como escreve Daniel Delouia, dificilmente conseguimos
classificá-la entre os quadros clínicos da psicopatologia. À dor do tempo que
corre arrastando consigo tudo o que o homem constrói, ao desamparo diante da
voragem da vida que conduz à morte – que para o homem moderno representa o fim
de tudo – a depressão contrapõe um outro tempo, já morto: um “tempo que não
passa”, na expressão de J. Pontalis.
O psiquismo,
acontecimento que acompanha toda a vida humana sem se localizar em nenhum lugar
do corpo vivo, é o que se ergue contra um fundo vazio que poderíamos chamar,
metaforicamente, de um núcleo de depressão. O núcleo de nada onde o sujeito
tenta instalar, fantasmaticamente, o objeto perdido – objeto que,
paradoxalmente, nunca existiu.
A rigor, a vida não faz
sentido e nossa passagem por aqui não tem nenhuma importância. A rigor, o eu
que nos sustenta é uma construção fictícia, depende da memória e também do
olhar do outro para se reconhecer como uma unidade estável ao longo do tempo. A
rigor, ninguém se importa tanto com nossas eventuais desgraças a ponto de
conseguir nos salvar delas. Contra este pano de fundo de nonsense, solidão e
desamparo, o psiquismo se constitui em um trabalho permanente de
estabelecimento de laços – “destinos pulsionais”, como se diz em psicanálise –
que sustentam o sujeito perante o outro e diante de si mesmo.
Freudianamente falando,
a subjetividade é um canteiro de ilusões. Amamos: a vida, os outros, e
sobretudo a nós mesmos. Estamos condenados a amar, pois com esta multiplicidade
de laços libidinais tecemos uma rede de sentido para a existência. As diversas
modalidades de ilusões amorosas, edipianas ou não, são responsáveis pela
confiança imaginária que depositamos no destino, na importância que temos para
os outros, no significado de nossos atos corriqueiros. Não precisamos pensar
nisso o tempo todo; é preciso estar inconsciente de uma ilusão para que ela nos
sustente.
A depressão é o
rompimento desta rede de sentido e amparo: momento em que o psiquismo falha em
sua atividade ilusionista e deixa entrever o vazio que nos cerca, ou o vazio
que o trabalho psíquico tenta cercar. É o momento de um enfrentamento
insuportável com a verdade. Algumas pessoas conseguem evitá-lo a vida toda.
Outras passam por ele em circunstâncias traumáticas e saem do outro lado. Mas
há os que não conhecem outro modo de existir; são órfãos da proteção imaginária
do “amor”, trapezistas que oscilam no ar sem nenhuma rede protetora embaixo
deles. “A depressão é uma imperfeição do amor”, escreve Andrew Solomon, autor
de “O demônio do meio-dia”, vasto tratado sobre a depressão publicado nos
Estados Unidos e traduzido no Brasil no final de 2002. Faz sentido, se
considerarmos o sentido mais amplo da palavra amor.
Durante cinco anos,
Solomon dedicou-se a pesquisar a depressão: causas e efeitos, tratamentos,
hipóteses bioquímicas, estatísticas. Recolheu histórias de vida de dezenas de
pessoas que passaram por crises depressivas – “nunca escrevi sobre um assunto a
respeito do qual tantos tivessem tanto a dizer”. A estas, acrescentou sua
própria história – o trabalho no livro foi uma forma de reação ao longo período
em que ele próprio passou por sérias crises depressivas. Um período em que, nas
palavras do autor, “cada segundo de vida me feria”.
A julgar pelos números
recolhidos por Solomon em relatórios da divisão de saúde mental da Organização
Mundial de Saúde – o DSM-IV – esta ferida acomete a um número cada vez maior de
pessoas no mundo, e particularmente nos Estados Unidos. 3% da população norte
americana sofre de depressão crônica – cerca de 19 milhões de pessoas, das quais
2 milhões são crianças. A depressão é a principal causa de incapacitação em
pessoas acima de cinco anos de idade. 15% das pessoas deprimidas cometerão
suicídio. Os suicídios entre jovens e crianças de 10 a 14 anos aumentaram 120%
entre 1980 e 1990. No ano de 1995, mais jovens norte-americanos morreram por
suicídio do que de da soma de câncer, Aids, pneumonia, derrame, doenças
congênitas e doenças cardíacas.
Esta forma de mal estar
tende a aumentar, na proporção direta da oferta de tratamentos medicamentosos:
há vinte anos, 1,5% da população dos Estados Unidos sofria de depressões que
exigiam tratamento. Hoje este número subiu para 5%. Sincero adepto dos
tratamentos farmacológicos, que segundo ele salvaram sua vida, Andrew Solomon
acaba por se perguntar se a doença cresce com o desenvolvimento da medicina ou
se a indústria farmacêutica produz as doenças para os remédios que desenvolve,
do mesmo modo que outros ramos industriais criam mercados para seus produtos.
Insight sem inconsciente?
A contribuição das
terapias medicamentosas no tratamento das doenças mentais é inegável, e o
analista, assim como outros “terapeutas da fala” no dizer de Solomon, não pode
dispensá-la. “O Prozac não deveria tornar o insight dispensável,”, diz Robert
Klitzman, da Universidade de Colúmbia, citado pelo autor. “Deveria torná-lo
possível”.
Mas qual o insight
possível, capaz de produzir efeitos sobre a subjetividade, em uma cultura onde
as práticas de linguagem se impõem fortemente de modo a apagar o sujeito do
inconsciente? As histórias de pacientes depressivos enumeradas por Andrew
Solomon centram-se ao redor da perspectiva única do vitimismo. As pessoas se
deprimem porque não suportam o que foi feito a elas. Acidentes, perdas
traumáticas, abandonos, violência, abuso sexual na infância; é de fora para
dentro que a vida psíquica se impõe àqueles que sofrem de mal estar.
É óbvio que a rede de
proteção do psiquismo pode ser rompida pelas irrupções traumáticas do real; mas
as “desgraças da vida” recaem sempre sobre um sujeito, incidem sobre uma
posição desejante e são rearticuladas pelas formações do inconsciente, que são
formações da linguagem. Do ponto de vista do vitimismo, a cura da depressão
consiste na eliminação de todo traço de “má notícia” que advenha do
inconsciente. A psiquiatria e a indústria farmacêutica aliam-se a este ponto de
vista. “Assistimos a um conluio curioso entre a descrição psiquiátrica e a
própria queixa do deprimido”, escreve Delouia. “A ignorância a respeito do
psíquico “une o fenômeno depressivo com a parafernália nosográfica da
psiquiatria”.
O autor não deixa de ser
crítico em relação a esta perspectiva. “Nós patologizamos o curável. Quando
existir uma droga contra a violência, ela será encarada como uma doença”.
Também é crítico em relação ao ideal de remoção química de toda a dor de
existir. No entanto, a ingenuidade a respeito da realidade psíquica prevalece
até mesmo em relação à sua própria crise depressiva. Filho de uma mulher ativa
e absorvente, que mais tarde ele próprio pode perceber como depressiva, Andrew
Solomon participou, junto com o pai e o irmão, do suicídio assistido da mãe,
vítima de câncer no ovário aos 58 anos. Depois dessa morte, dramática e
intensamente estetizada, a fantasia de suicídio ocorre aos outros membros da
família. No ano seguinte, Solomon inicia uma análise com uma mulher que lhe
lembra a mãe, e propõe a ela um pacto incondicional: não abandonarão o
tratamento até o “fim”, sob nenhuma condição. Mas alguns anos depois,a analista
anuncia ao dedicado analisando que vai deixar o trabalho. Aposentadoria por
tempo de serviço…
No tempo de análise que
lhe resta, Andrew Solomon não entende por que vai entrando em depressão cada
vez mais grave, até que a própria analista concorda em que ele busque auxílio
psiquiátrico. A análise “termina” pouco depois, e ele atravessa um ciclo de
depressões gravíssimas. A inabilidade da analista de Solomon quanto ao manejo
da transferência diante de um quadro de luto melancólico salta aos olhos do
leitor familiarizado com a psicanálise. Não é sem razão que ele escreve, anos
mais tarde, que a psicanálise seja “hábil para explicar, mas não eficiente para
mudar” os quadros depressivos.
A julgar pelo relato de
Solomon, seu tratamento psicanalítico foi baseado na reconstituição da vida
infantil, em busca de um causalidade psíquica que, de fato, pode ter valor
explicativo mas não produz nenhuma intervenção sobre o psiquismo vivo e ativo
no sujeito adulto. Pierre Fédida, em seu livro sobre a depressão, adverte sobre
os riscos de se buscar a evocação de um “acontecimento real que se supõe
empiricamente traumático: a vivência infantil – essencialmente inatual na fala
associativa – recebe assim uma positividade patogênica, na forma de uma
atualidade passada”. O “infantil” que interessa à psicanálise não é o do
passado, rememorado pelo eu, mas o que se manifesta ao vivo na transferência,
nas demandas dirigidas ao analista. Como a analista de Solomon não se deu conta
da relação entre a proposta de uma análise incondicional feita por ele, o amor
pela mãe e o pacto de morte que o uniu a ela? Como não se deu conta da relação
entre a crise depressiva de seu analisante e o anúncio burocrático de sua
“aposentadoria”?
O livro de Solomon não
oferece nenhuma contribuição decisiva para o conhecimento da depressão, mas
lança uma luz importante sobre as relações entre a emergência epidêmica dessa forma
de mal estar e os modos de subjetivação predominantes na cultura
norte-americana. Em uma sociedade onde as formações discursivas apagam o
sujeito do inconsciente, em que a felicidade e o sucesso são imperativos
superegóicos, a depressão emerge – como a histeria na sociedade vitoriana –
como sintoma do mal estar produzido e oculto pelos laços sociais. O vazio
depressivo, que em muitas circunstâncias pode ser compensado pelo trabalho
psíquico, é agravado em função do empobrecimento da subjetividade, característico
das sociedades consumistas e altamente competitivas. A “vida sem sentido” de
que se queixam os depressivos só pode ser compensada pela riqueza do trabalho
subjetivo, ao preço de que o sujeito suporte, amparado simbolicamente pelo
analista, seu mal estar. A eliminação farmacológica de todas as formas de mal
estar produz também, paradoxalmente, o apagamento dos recursos de que dispomos
para dar sentido à vida.
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